Violência Doméstica, por Gabi Porfírio

No dia 7 abril o Porta dos Fundos lançou em seu canal no YouTube o vídeo “Problemas domésticos”. A descrição do vídeo é essa: “Não há nada melhor pra se fazer numa tarde de dia de semana do que assistir qualquer programa de baixaria em que a Karollyne revela um segredo para o marido Marlon, ou a Gleysiane xinga a filha Etienne porque ela tem um caso com padrasto Edmar, ou até mesmo descobrir que a Stephanny na verdade é Haroldo e se prostitui em troca de hambúrgueres. Tudo isso, claro, depois que algum vendedor te convencer a comprar aquele maravilhoso aparelho com nome difícil e que define os músculos do seu abdômen enquanto você dorme.
Com vocês, mais um vídeo original do Porta dos Fundos: ‘Problemas Domésticos’”.

Confesso que já há algum tempo venho com o pé atrás com os humoristas do canal e suas piadas transfóbicas – como dizer que Stephanny é “na verdade” Haroldo, por exemplo. Mas confesso também que acho de uma acidez fina as críticas à Polícia Militar do Rio de Janeiro (e dos demais estados como um todo). Como brilhantemente lembrado por Djamila Ribeiro (http://blogueirasnegras.org/2014/03/28/o-verdadeiro-humor-e-aquele-que-da-um-soco-no-figado-de-quem-oprime/), Henfil definia “o verdadeiro humor (como) aquele que dá um soco no fígado de quem oprime”. Pois é. De quem OPRIME, Porta dos Fundos. E não de quem já é oprimido e leva o soco diariamente, literalmente.

O esquete baseia-se basicamente na inconveniência dos anúncios feitos no programa (merchandising) entre uma “baixaria” e outra, exatamente como a descrição do vídeo prevê. A crítica, portanto é sobre os programas, suas configurações e seu sensacionalismo barato. O problema são as ramificações dessa crítica e quais são os instrumentos escolhidos para construí-la.

Sim, nós queremos que os humoristas brasileiros responsabilizem-se por suas piadas, e pelo que elas incentivam/incitam/sugerem e que respondam por isso. Entretanto essa responsabilidade não independe do bom senso de seu público alvo, mesmo porque a interpretação de um discurso é um trabalho em conjunto do produtor e do receptor do texto. Estamos falando de casos em que temas como estupro e violência doméstica são tratados na base da piada, da brincadeira.

A metalinguagem que deveria ser criticamente expressiva – a dona de casa que sai chorando porque houve ali um gatilho para que ela se lembrasse das agressões sofridas por parte do marido – quando analisado o contexto do mundo real, ela se concretiza! Mulheres apanham MESMO dos seus maridos bêbados diariamente. Com tacos de beisebol. Com vassouras. Com a mão. Com os pés. Com as palavras. Isso não é engraçado!

O desconforto do anunciante, sim, esse é real, esse desconforto nós sentimos como o gênero

e-mail da autora: gabilpc.pvs@gmail.com

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